“É bom viver numa linda Lisboa, mas é muito melhor ser de uma Nazaré que fala a cantar”

About Men

Há uma magia diferente sempre que chego à Nazaré e avisto o seu promontório. Uma maresia que acalma e um abraço que me acolhe como quem diz “Bem-vindo a casa, filho!” A sensação é tão única que não consigo explicar por palavras. Sinto-a apenas. E é tão bom sentir. É tão bom ser desta terra mágica, onde Amália passou férias, Eusébio e Torres descansaram após o Mundial de 66, Jean Scherbeck pintou, Carminho canta e McNamara desafiou. Mas, permitam-me, é ainda melhor ser neto de Ângela da Morranga que vendia peixe porta a porta, amigo do “Quim Maladrão” que, de entre a sua doença mental, tenta tocar guitarra pelas ruas da Nazaré como se estivesse em Wembley, de Ricardo Poupada, que é um dos jovens empresários de maior sucesso no mundo e do Ludgero, pintor na construção civil, que emigrou para o Canadá para lutar pela sua vida.

Hoje já não caminho descalço pelas suas ruas estreitas. Já não tenho o seu sotaque deliciosamente impercetível. Os seus caminhos já não me levam à praia como outrora. Já nem me deixam secar ao sol no cimento das escadas dos balneários no areal. Já não oiço os “gritos” da minha mãe à noite a chamar-me para vir para casa. Já não sinto a alegria de ter os bolsos das calças cheios de bates – vulgo berlindes – e as unhas sujas de terra. Também já não me deixam voltar a sentir a vontade de deixar a pele em campo no pelado de “Os Nazarenos”, onde joguei futebol a sonhar que poderia ser o Melhor do Mundo como Emílio Peixe (1991), outro nazareno. Hoje só consigo reviver as memórias de histórias mágicas da infância que nela vivi. E tenho a certeza que são elas que tornam a Nazaré tão especial para mim. Outros terão as suas memórias das suas terras, da sua infância. Certamente tão especiais quanto as minhas.

É bom viver numa linda Lisboa que me acolheu, mas é muito melhor ser de uma Nazaré que fala a cantar, que é prosa para os poetas, que é história, que é das sete saias, que é amante do pescador, que é luta, que é das mulheres de preto que acariciavam a areia e rezavam até à chegada do último barco, que é das ondas gigantes, que é dos pés descalços, que é genuína e vaidosa, que é, afinal, a terra do amor. A antiga e a de agora.

Pedro Lucas, Men’s Health

 

“Tiramos a selfie no elevador, postamos no Instagram, vamos para o trabalho e esquecemo-nos sempre de dizer bom dia a quem vive lá em casa”