Correu 290 kms e só dormiu 3 horas!

Se há grandes desafios humanos, correr um ultra trail é certamente um deles. Até podemos imaginar as dificuldades e o nível de exigência de alguém que se predispõe a percorrer centenas de quilómetros, mas dificilmente conseguiremos estar próximos da realidade. Por isso, nada como dar a palavra a quem o fez (recentemente). Fique com o relato na primeira pessoa de Sérgio Melo, brasileiro residente em Portugal, que concluiu, pela primeira vez, esta prova com perto de 300 quilómetros…

Um ressurgir das cinzas. Não posso definir de outra forma a prova Ultra Maratona PT281+ que concluí na semana passada. Eu, Sérgio Melo, nunca imaginei que neste meu percurso de vida ainda iria encontrar outra coisa que desafiasse a minha capacidade física, mental e emocional, até que encontrei na Internet o anúncio da PT281+ Ultramarathon Beira Baixa Portugal. Para que me conheçam melhor, fui campeão nacional e internacional de Jiu Jitsu, lutador de Vale Tudo (MMA), fui campeão mundial pela extinta franquia IVC e, como militar, fiz parte de uma das mais duras e exigentes forças militares do mundo, a Légion Étrangère. Isto para dizer que, depois de ter sido posto à prova pela vida de várias formas e métodos, não esperava que uma prova de corrida se revelasse num desafio de uma vida. Ela foi um verdadeiro teste não só para o corpo, como também um bálsamo fortalecedor para o espírito.

Eu e o Bruno Bondoso estávamos completamente cansados de tal forma que começámos a ter alucinações. Num determinado momento da madrugada, ao olhar para a estrada juro que vi algo que parecia uma baleia! Perguntei: Bruno, aquilo ali é uma baleia? E ele, sem hesitar, perguntou: Onde?
Agora podem imaginar o nível
de alucinação…

A PT281+ fez-me ressurgir literalmente das cinzas. Numa prova de corrida normal espera-se a luta pela vitória, pelo pódio ou algo parecido, como ser uns dos primeiros a chegar à meta ou bater os recordes de tempo. Nesta prova não! Aqui foi tudo diferente: o espírito de companheirismo e a solidariedade falaram sempre mais alto. É uma “viagem” realmente emocionante, em que nos deparamos com um resgate de sentimentos e valores que, por consequência de vários factos da vida, vamos deixando para trás. A atitude das pessoas que estão directamente ligadas à prova já se espera que seja cordial, emocional e impecavelmente eficiente. Porém, foi nas atitudes das pessoas que nada tem a ver com a prova que ocorreu o clique que mexeu com a minha parte emocional. Fosse de dia, pela noite ou madrugada, eu e todos os corredores encontrávamos preparada a porta das casas das aldeias por onde passávamos, pequenas mesas cobertas com toalhas brancas e em cima delas cestos com frutas, garrafas de água e até pão com queijo e vinho para comermos se quiséssemos… Deus do céu, como isso foi fortalecedor para o nosso espírito, aquela mensagem que eles, sejam quem for, nos passavam indiretamente. Deus Criador sabe a emoção que representa nos corações das suas criaturas quase desfeitas por fora e por dentro atitudes como estas que os aldeões tiveram connosco. Ressurgir das cinzas como uma fénix foi o que literalmente ocorreu com a minha mente e coração.


3 PERGUNTAS A SÉRGIO MELO:
1 – Quantos quilómetros percorreste, em quantos dias e quantas horas dormiste ao longo da prova?
“No total foram 290 km em 62 horas! Dormi duas horas depois dos primeiros 80 km e só voltei a dormir uma hora aos 260 km. Graças ao meu amigo-anjo infalível Bruno Bondoso que não deixou que o sono durasse mais. Portanto, dormi três horas em dois dias e meio”.

2 – O que comeste e bebeste ao longo do percurso?
“A minha alimentação foi baseada em banana, pão, sopa, frango, carne, coca-cola, frutos secos e água, muita água. Temos tudo isso nos postos de abastecimento. Claro que comia muito pouco para não passar mal”.

3 – Por que é que achas que qualquer homem deve tentar fazer uma prova com estas características?
“Foi graças à PT281+ Ultramarathon que consegui colocar novamente à prova a minha capacidade mental, pois, como imaginam, numa prova como esta chegamos literalmente a um ponto em que o nosso estado físico deixa de responder e a mente toma todo o controle da situação. Eu saí literalmente do meu corpo durante a prova e fiz uma viagem fora da mente. É maravilhoso a sensação que senti durante a prova, mesmo com dores, sono, sede e fome. Nunca pensei na hipótese de desistir, pois nunca me senti sozinho“.

Por esse feito agradeço ao Grande Paulo, organizador da prova e à sua esposa Sandra, a todos os elementos da organização envolvidos, especialmente à Mónica Serrano que com muita paciência trabalhou a logística, fermentando o meu renascimento. Abraços aos meus companheiros de corrida Bruno Bondoso e Joel Chávez que sem a ajuda deles não seria possível essa vitória. Mais informações sobre a prova em www.pt281.com.

Fotografias: Thiago Diz

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