Um clássico na minha geração: o colega da turma mais “fofinho” ocupava sempre o lugar que mais ninguém queria, a baliza. Um bullying (in)direto que muitos de nós fazíamos, talvez com uma ponta de inocência, admito. Mas a verdade é que, em miúdos, já vetávamos a possibilidade de “o gordo” poder vir a ser o melhor ponta de lança da escola. Não conseguia correr tanto quanto nós. Ocupava mais espaço e se ocupava mais espaço, menos possibilidades teria a outra equipa de marcar golo. E se rematassem com força, não havia problema. Afinal, todos pensavam que com tanta gordura, a bola nunca magoaria o gordo. Fisicamente talvez não, mas hoje, olhando para essa infância, esses remates à baliza magoavam-no de outra forma.

Na minha turma da escola, o gordo era o Ricardo – hoje um grande amigo meu. Andava sempre connosco, mas, lá está, em tudo o que era perigoso ou suspeito, era o gordo que fazia. Isto aconteceu durante uns anos, até que há uma altura em que ele se farta da pressão e abuso daqueles que tanto queria que fossem os seus amigos, ou seja, nós. Isolou-se. No início sentimos a sua falta, afinal de contas, não havendo gordo, quem é que ia à baliza?

Mesmo que a consequência mais comum dessa decisão do Ricardo o tenha conduzido a situações difíceis de isolamento, sofrimento, desespero, entre outros – hoje, adultos, falamos muitas vezes sobre isso -, a verdade é que ele conseguiu superar tudo porque os seus pais perceberam a tempo o que se passava. Conseguiram trabalhar com ele (e com os professores) a sua autoestima e a ter confiança de que até poderia não vir a ser futebolista, mas certamente seria feliz e competente noutra profissão. Mas foi preciso acontecer uma situação limite para que os pais reconhecessem que “gordura não é formosura” e que o Ricardo enfrentava um grave problema de obesidade infantil.


A caminhada foi longa, mas valeu a pena. O Ricardo, que devorava diariamente gomas, refrigerantes, batatas-fritas e um sem-fim de outras porcarias, passou a gostar de levar fruta e água para a escola em vez de um pacote de bolachas de chocolate e um ice-tea. Provavelmente, o incentivo à alimentação saudável nas escolas deva ser uma realidade por forma a prevenir o crescente número de casos de obesidade infantil. Se calhar os pais devem estar mais atentos aos seus filhos em vez de pensarem que os casos de bullying só acontecem aos filhos dos outros. Talvez estes temas mereçam ser mais debatidos, ou não fosse o bullying e a obesidade infantil uma combinação altamente perigosa. É que infelizmente continuam a haver muitos Ricardos por aí e muitos outros miúdos a quererem continuar a colocar o gordo na baliza. E ambos carecem da nossa intervenção e atenção. Aos Ricardos devemos ajudá-los a ser mais saudáveis, aos outros devemos explicar-lhes que o facto de terem colegas de escola gordos ou com outra característica diferente, estes não devem ser alvo de pressão, insulto e/ou discriminação.

Felizmente, tal como nos romances da Disney, há algumas “histórias” de gordos-que-vão-à-baliza com um final feliz. Hoje o Ricardo é um homem com porte físico brutal, uma carreira militar de topo, é pai de duas filhas e um entusiasta do estilo de vida saudável. Mas todos sabemos que nem sempre é assim.

Nota:
O que escrevi nestas linhas corre o risco de estar muito próximo da realidade de muitos pais portugueses, até daqueles que pensam que os seus filhos estão bem. Todos nós podemos avançar justificações sobre este tema e apontar causas para este tipo de bullying e para os crescentes casos de obesidade infantil e juvenil, mas o mais importante é estarmos muito atentos aos sinais que os nossos filhos nos dão. Porque eles dão. A melhor tática de jogo é essa, digo eu.

Por Pedro Lucas,
diretor Men’s Health

ARTIGOS RELACIONADOS


OUTROS CONTEÚDOS GMG


Send this to friend