Aqui só os melhores sobrevivem!

Nos bastidores da luta corpo a corpo de um dos campeonatos de luta livre mais antigos do mundo, há uma forma diferente de se provar quem está em melhor forma. Preparado para esquecer tudo o que viu até hoje?

Viajei durante umas boas horas para assistir ao Kirkpinar, o principal evento desportivo da Turquia, que também reclama para si o feito de ser a competição desportiva mais antiga do mundo. Há mais de 650 anos que todos os verões os melhores na luta corpo a corpo da Turquia se juntam perto da fronteira mais a oeste do país para se defrontarem pelo título de Baspehlivan (campeão) e pelo cinturão de ouro de 14 quilates. É uma tradição que permanece quase inalterada desde a sua génese durante o Império Otomano e é uma distração bem-vinda num país abalado por tumultos políticos.

Os lutadores entram na arena como deuses. De corpos cobertos de óleo e reluzentes pelo sol, avançam pelo campo vestidos com calções feitos de pele de búfalo. Metem-se com o público que assiste. Incentivam-nos a puxar por eles. Eles merecem os aplausos, afinal ultrapassaram os dias difíceis de fases eliminatórias em condições extremas que reduziram centenas de lutadores participantes a meia dúzia de finalistas. Agora estão ansiosos por continuar a sua luta. Há dinheiro em jogo – muito dinheiro – assim como honra e fama. Quem sair vitorioso será coberto de ouro.

A multidão vibra quando os lutadores se juntam aos pares e se inclinam frente a frente, encostando as testas, para dar início a este confronto brutal. Em ação lenta e deliberada, cada lutador antecipa vários movimentos num esforço para levar a melhor sobre o adversário. Mas, muitas das vezes, um atleta age de forma tão rápida que faz o adversário cair redondo no chão. Escorregadios devido ao azeite e vestidos com calças de cabedal, os lutadores tentam derrubar-se um ao outro até caírem de barriga para cima, ganhando, assim, a luta. A assistência vai ao rubro com aplausos. “Quer saber o que é força funcional? Está a olhar para ela”, disse-me Steve Maxwell, M.S., lutador e treinador brasileiro, campeão do mundo de jiu-jitsu que me convidou a vir à Turquia. É uma oportunidade rara para ele ver, com os próprios olhos, uma variante diferente do seu desporto favorito, assim como para pôr um visto em mais uma experiência de vida a que se propôs: explorar a vertentes radicais do fitness nas diversas culturas do mundo.

Maxwell não tem casa, carro, nem qualquer tipo de chaves. Ele treina os seus clientes, que vão desde mestres em artes marciais a pais de família, quase exclusivamente online. Os seus bens cabem perfeitamente numa mala de viagem de 80 cm. Para além disso, durante os últimos cinco anos, viajou por todo o mundo à procura de novas técnicas de treino e redescobriu outras antigas. “Eu sou a minha própria experiência ambulante,” diz Maxwell cujas explorações internacionais já lhe atribuíram a alcunha de “The Fitness Hunter”. É por estas e por outros que ele já alcançou um lugar no grupo restrito dos melhores treinadores do mundo.
As viagens de Maxwell também o fizeram repensar em muitos dos princípios de treino já produzidos pela indústria do fitness e em métodos que vão desde a melhor forma de respirar durante o exercício físico às noções fundamentais de dieta e nutrição desportiva. Em cada paragem na sua digressão mundial sem fim, ele aproxima-se mais da sua derradeira recompensa. “O meu objetivo é tornar-me num atleta sem idade”, diz. E tem todo o mérito. Os cabelos grisalhos revelam os seus 60 anos, mas o corpo ágil e musculado facilmente fariam dele um homem de 30 anos em plena forma.

Na manhã seguinte, metemo-nos num carro e fizemos uma nova viagem de três horas em direção a Edirne. Outrora a capital do Império Otomano (de 1365 a 1453), esta pequena localidade de antigas mesquitas e ruas empedradas é, por estes tempos, mais bem conhecida por dois motivos: produção de sabonetes decorativos em forma de frutos e pelo já mencionado Kirkpinar, que aqui se realiza desde 1924. A cidade vai ao rubro durante a competição anual de luta-livre com azeite, divertindo os turistas e atletas com concertos, feiras e festivais pela noite dentro. Enquanto deambulamos pelas ruas, vários lutadores com um físico impressionante acenam-nos com a cabeça.

“Não importa onde está nem de onde vem – a luta livre é uma irmandade”, disse Maxwell.

A minha ansiedade aumentava. Estava prestes a ver in loco o Yağlı güreş, que significa “luta de azeite” ou “luta de gordura” numa tradução à letra. E aqui deixo-vos com as imagens que ilustram muito melhor esta luta do que eu continuar a tentar explicá-la por palavras.

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