Fernando Pimenta: “Temos de acabar com o tabu em torno da saúde mental”

20 Setembro, 2022

Em qualquer altura do ano em que falemos com o canoísta Fernando Pimenta, é certo que o atleta já tem delineado o plano de treinos para os próximos meses – ou ano. Sabe sempre o que vai treinar, como vai treinar, e de que armas precisa para garantir o seu sucesso – não estivesse ele entre os melhores.

Sem segredos, garante que a fórmula é sempre a mesma: prazer no que faz, alimentação equilibrada, descanso e saúde mental. E é sobre este último ponto que centramos a nossa entrevista. A Men’s Health acompanha Fernando Pimenta na missão de desmistificar o que precisa de ser dito sobre saúde mental e convida-o agora a ler sobre o tema.

Começo por falar sobre aquele que foi muito provavelmente um dos pontos altos da sua vida: a paternidade. Sente que a sua visão mudou em algum aspeto após ter sido pai?

Um pouco, sim. Se antes já era sensível a certos pormenores ligados a crianças, principalmente a maus tratos, agora ainda mais. Só para dar um pequeno exemplo: há pouco dei uma bola de futebol que encontrei no rio a um miúdo que ma pediu assim que viu a bola dentro da carrinha. Era impossível negar e ele fez uma festa enorme quando lha dei. É só um pequeno gesto que podemos ter. A bola não me ia fazer falta, apanhei-a porque estava no rio e assim tirava pelo menos um pedaço de poluição da água, às vezes acontece, e a criança ficou tão feliz… Sem dúvida que isso foi uma das coisas que mais mudou em mim, essa crescente sensibilidade para com as crianças.

O que não mudou foi o seu compromisso enquanto atleta de alta competição. Continua a treinar 7 dias por semana, com alguns bidiários ou até quatro treinos por semana?

Sim, o ritmo mantém-se. Ainda hoje de manhã foram dois treinos, um no rio e outro a correr. Mas ontem fizemos quatro treinos. Depende sempre das fases em que estamos, agora estamos numa fase de bastante volume, pouca intensidade mas muito volume, o que faz com que não tenhamos tempo para mais nada. É mesmo só descansar e pouco mais. Têm sido dias bastante desgastantes, mas sabemos que esta parte da pré-época é aquela que mais custa inicialmente porque temos de voltar ao ritmo, em termos também de estrutura física. Todos estes pequenos pormenores custam. Temos de voltar aos poucos e poucos para conseguirmos, nas competições, estarmos numa boa performance e lutarmos pelos resultados.

…e esses resultados também dependem do bom descanso. Houve tempo para parar depois do mundial?

Sim, claro. Depois do Mundial estivemos parados praticamente um mês porque foi um ciclo olímpico muito longo e com toda esta situação da pandemia, em termos psicológicos foi ainda mais desgastante, foi um bónus extra para a parte mental. Normalmente faço três semanas de paragem, porque o corpo precisa de descansar e de relaxar e a cabeça também precisa de voltar a ganhar motivação. Mas este ano fizemos uma semaninha a mais de paragem – soube-me muito bem. Mesmo assim soube a pouco mas pronto, hei de ter tempo para desfrutar…

O que considera essencial nestes momentos de pausa?

Estar com a família! Sem dúvida. Esta pausa foi o momento em que consegui estar um mês inteiro com a minha filha e com a minha mulher sem haver espaço para mais nada. Também aproveitei para estar com os meus pais e irmãos. Aproveito sempre as férias para desfrutar daquilo que normalmente não consigo fazer durante a minha época desportiva como o não ter horários rígidos, não ter uma alimentação tão regrada, tão disciplinada.

Mas agora está de volta aos treinos. Sabemos que define, com o seu treinador, objetivos a curto, médio e longo prazo. Com todo este planeamento já definido, as sestas continuam a fazer parte do seu plano de treinos?

Sim, acho que é um momento bastante importante, principalmente agora no inverno, em que os treinos ao ar livre são bastante exigentes e desgastantes. Não há duvida que depois do almoço há sempre aquela quebra maior e sabe bem tentar cumprir aqueles 30, 40, às vezes 50 ou 60 minutos de sesta ou pelo menos descansar, desligar do mundo para recarregar as baterias para as sessões de treino à tarde. Sempre que posso, tento cumprir esse dever e ter esse cuidado.

Alimentação, treino e descanso. Mas há outro aspeto essencial, que é o da saúde mental, tema sobre o qual falou na WebSummit. Há diferentes formas de nos cuidarmos a este nível. Para si, o que é essencial para garantir a saúde mental?

Em primeiro lugar, temos de fazer algo com que nos sintamos felizes. Temos de fazer algo de que gostamos e não por obrigação nem porque nos é imposto. Temos de trabalhar com emoção e paixão, se assim não for, não estamos a tirar prazer nem rendimento. Além disso, é importante ir desfrutando do processo, quer da parte da dor e do sofrimento dos treinos, das vitórias, como também da parte das não vitórias – os momentos em que tentamos ganhar e não conseguimos, mas em que também trabalhamos e desfrutamos do caminho. E depois, lá está, tentar tirar os aspetos positivos daquilo que conseguimos pelo caminho, como estar com outros atletas, poder passar por locais diferentes do normal, conhecer pessoas, tudo isto sem dúvida que é uma parte que nos ajuda em termos emocionais, a par do apoio da própria família. Por fim, acho essencial ter o acompanhamento de um profissional da área, isto é muito importante não só para nós, atletas de alto rendimento, mas para as pessoas no geral. Às vezes é importante termos uma segunda opinião, pessoas que nos podem aconselhar sobre a forma como devemos falar numa reunião, ou tentar solucionar um problema ou pelo menos orientar-nos sobre a forma como o devemos abordar.

Tocou num ponto muito importante, que é o facto de esta pressão não ser exclusiva dos atletas de alta competição, é um problema generalizado. Acha importante dar o exemplo, dar a voz a este tema?

Sem dúvida. Se antes as pessoas faziam disto um tabu – aliás, a saúde mental ainda é um tabu, porque quando alguém diz que está a ser seguido por um psicólogo, pensam que está maluquinho, não está bem, e não é nada disso! Muitas vezes é para evitar chegar ao problema que recorremos a um profissional para nos ir seguindo e nos ir ajudando, para nunca chegarmos a casos extremos como um esgotamento ou um burnout. Acho mesmo que devemos ter este cuidado, acabar com o tabu e dizer ‘eu sou seguido, eu sou acompanhado, eu cuido de mim’. É algo muito comum, e é benéfico. É quase como quando nos arranjamos, nos produzimos para algum evento. É cuidar de nós. O facto de sermos capazes de ajudar a população em geral é muito importante, ainda que quando fala[1]mos em pressão em atletas de alta competição, falamos especificamente daquele momento em que temos os holofotes todos virados para nós, é aquele momento em que não podemos falhar porque não podemos dizer ‘para o ano tento outra vez’.

Exigem quase a perfeição dos atletas…

Exatamente. Temos de ser quase máquinas a executar as coisas.

E quando não são máquinas e falham, acha que está também preparado para estes momentos?

Sim. Nós temos de ter a consciência de que há sempre uma margem para erro. Uma margem de não conseguir. Em 2016 tive o fator externo à competição que levou a que eu ficasse fora das medalhas e naquela altura não estava preparado para o caso de acontecer algo extra competição, que não fosse eu a controlar. Provavelmente, agora já consigo pensar e reagir de outra forma. Ganhamos maturidade, sensibilidade, experiência e isso, dia após dia, competição após competição, conta muito

Foram estas as suas armas, o ganhar experiência…

Sim, acho que é o mais importante. Quando chegamos aos Jogos Olímpicos estamos a competir com atletas que em termos físicos estão no seu auge. Ninguém chegou lá por sorte. Todos os atletas que chegam a uma final olímpica são os melhores dos melhores. E por isso a parte do psicológico, da motivação, o estar tranquilo, com a adrenalina no momento certo para disparar, é sem dúvida o que conta para o resultado final.

Há pouco falava do que não depende de si. A pandemia é exemplo disso mesmo. Sente que lidou bem com a situação?

Lidei bem porque tive o apoio do meu treinador, da família – que foi muito importante – e do meu clube, do Sport Lisboa e Benfica, que nos apoiou sempre, nunca nos faltou com nada. O próprio Comité Olímpico tentava ajudar com algumas brochuras sobre aquilo que devíamos e não devíamos fazer. Tudo isto ajudou-me a ultrapassar este momento

Aos atletas mais novos que o seguem, que conselho deixa neste sentido?

Aquilo que lhes digo sempre é que devem ter um objetivo a curto, medio e longo prazo, Isto é o primeiro grande passo para poderem ser alguém. Também devem ter alguém como modelo, não digo que façam copy paste, porque assim perdem muita personalidade, e hoje em dia vê-se jovens – e não só – que querem ser exatamente como aquele atleta, aquela pessoa e fazem as mesmas coisas e aí acabam por perder a sua identidade. Sejam autênticos, genuínos, trabalhem para estes objetivos e para os vossos compromissos. E sejam felizes, desfrutem do caminho da competição, do treino, porque tudo isso são momentos que passam e que no futuro vão deixar saudades. O Fernando Pimenta inspira muitos mais portugueses além dos atletas que o seguem.

Aos leitores da Men’s Health, que mensagem deixa?

Como a revista diz, sejam saudáveis! E o ser saudável é também muito aquela parte do psicológico de que falámos. A par disso, temos de falar também um pouco do respeito por nós mesmos. Às vezes vejo pessoas que não são profissionais do desporto, não são atletas profissionais mas tentam fazer mais do que um atleta profissional, para tentar compensar o facto de não conseguirem treinar ao sábado ou ao domingo, e por isso durante a semana correm dezenas de quilómetros e não descansam, não respeitam o corpo. Acho que a própria revista está tão bem concebida que fala dos vários temas sem tabus – estão de parabéns por isso mesmo. Agora é continuar a abrir caminho, derrubar tabus, porque ainda existem, mesmo sobre suplementação, sobre o uso do dopping que infelizmente é uma coisa que ainda vai afetando o desporto e muito o desporto amador, não profissional.

Às vezes, só para ser o melhor do bairro, o melhor da rua, focam-se nos atalhos e isso pode trazer consequências muito graves. Tenham cuidado com isto tudo. Desfrutem do vosso processo, mas com saúde. Vimos agora alguns processos em que a Men’s Health desafiou pessoas que não praticavam desporto, não tinham se calhar um estilo de alimentação tão saudável e vimos o resultado a que chegaram. Que sejam, também eles, exemplo para que as pessoas acreditem que é possível mudar!

Esperamos voltar a conversar em breve. Até lá, o que lhe falta alcançar?

O ouro Olímpico e o ouro nos Jogos Europeus. São duas medalhas que ainda não tenho. Nos Jogos Europeus tenho quatro de prata, nos Jogos Olímpicos tenho uma de prata e uma de bronze por isso, para completar o leque, falta mesmo só o ouro.

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