Como treina Conor McGregor

27 Agosto, 2017

Na sua primeira luta com Nate Diaz, Conor McGregor previu que o leão ia comer a gazela. Mas não foi bem assim…

Mcgregor VS Diaz

Disse que o seu rival era demasiado fraco. Demasiado repetitivo. Ia derrotá-lo no primeiro assalto. Resultado? Diaz trocou as voltas ao lutador irlandês e ganhou-lhe por submissão no segundo assalto.

“Nate Diaz manteve a compostura e eu entrei em panic mode”, explica McGregor. “Podes fugir da adversidade ou lançares-te de cabeça e superá-la. Corri o risco. Não correu bem, mas vou voltar!”

Antes deste combate com Diaz, Conor McGregor estava numa forma impressionante: 15 vitórias seguidas desde 2010.

No total, tinha ganho 19 das suas 22 lutas profissionais e todos eles – menos dois – foram por KO. A luta que maior notoriedade lhe deu foi contra o brasileiro José Aldo, que não perdia uma luta há 10 anos, e Mcgregor deixou-o KO em apenas 13 segundos conquistando o título de Campeão Mundial da categoria peso leve do UFC.
Talvez isto o tenha deixado demasiado confiante no dia em que perdeu com Diaz. “A maioria dos lutadores, quando sabem que vai haver uma alteração na sua luta por lesão do adversário, ficam nervosos por não saberem contra quem vão ter de lutar. Mas com Conor não foi assim. “Ele disse que enfrentava qualquer um”, afirma Dana White, presidente do UFC. “Lembro-me que fui de carro à Mac Mansion (a mansão de 1.100 metros quadrados de McGregor) às três da tarde. Conor apareceu de roupa interior a esfregar os olhos com cara de sono. Quando lhe disse que o seu adversário tinha acabado de se lesionar, apenas perguntou contra quem ia lutar. Dissemos-lhe que havia três opções. Limitou-se a dizer: OK. Vou treinar daqui a nada. Quando souberes contra quem vou lutar, telefona-me”.

Enfrentar um adversário de 77 kg (10 kg mais pesado que Conor) apresenta novos desafios.

Já não seria a primeira vez que McGregor tinha de perder quilos para uma luta, mas ganhar quilos é totalmente diferente. “Comia dois bifes por dia. Até comia bolachas”, relembra McGregor, que normalmente luta na categoria de 66 kg. “Estava sempre cheio e nunca se luta quando estamos cheios. Luta-se quando estamos esfomeados”, afirma o irlandês.
O seu treinador, John Kavanagh, acredita que passar fome para atingir um peso inferior coloca o lutador em modo de sobrevivência e isto ativa o cérebro reptiliano.
À medida que McGregor vai perdendo peso só vê o seu adversário como um obstáculo entre ele e uma verdadeira refeição”.

Depois da derrota na primeira luta com Diaz, McGregor passou a dedicar mais tempo ao treino cardiovascular.

“Dei uma tareia no Diaz durante oito minutos consecutivos. Não foi a técnica que cedeu. Foi a resistência”, relembra. Depois da derrota aprendeu que tem de se preparar para lutas mais longas e estratégicas. “Não considero isto como algo frustrante, pois serviu para aprender”, reconhece McGregor que admite ter revisto a luta dezenas de vezes. “Nas próximas lutas vou estar muito mais preparado!”.

McGregor acredita que o treino de força tradicional está sobrevalorizado.

“O que as pessoas veem como potência não é mais que um corpo tenso e isso, na realidade, é muito frágil”, explica. As pessoas ficam enredadas na sua rotina, fazem as mesmas coisas constantemente. Eu prefiro ser um expert em várias coisas diferentes”. É por este motivo que McGregor demonstra um infinito interesse em aprender novos estilos de luta, métodos de treino e abordagens mentais. Essa busca levou-o a conhecer Ido Portal, um especialista em movimento cujo enfoque adota elementos das artes marciais, da dança, do circo, do atletismo e de muitas outras disciplinas. McGregor disse que já tinha começado a estudar os métodos de Ido Portal através do YouTube, em 2013. “Ido move-se de uma maneira incrível”, afirma. Claro que fez de tudo para o conhecer pessoalmente e a partir daí passaram a trabalhar juntos.

A luta com José Aldo

Durante a preparação para a luta com José Aldo, Portal revelou vídeos de exercícios que fazia com McGregor: complexos movimentos de ginástica, rotinas que imitavam padrões de movimento de animais e até movimentos de ballet com uma vara de bambu. Isto não é o que os fãs das MMA (Artes Marciais Mistas) estão habituados a ver. “Poucas pessoas percebem o que estamos a fazer”, reconhece Portal. “E como sempre, as pessoas receiam o que é novo, o que é diferente, o que requer uma nova abordagem”.

O Aldo é forte e é rápido. Mas a precisão é mais importante que a força e o timing é mais importante que a velocidade.

Quando McGregor treina boxe no ginásio, torna-se evidente a força dos seus golpes, assim como a graciosidade dos seus movimentos.

Claro que os seus diretos e ganchos de esquerda deixaram KO mais de uma dúzia de lutadores profissionais, mas a verdade é que os seus movimentos apresentam a fluidez da dança moderna. O contraste de estilos é algo visível no lutador irlandês, especialmente através da enorme tatuagem que ostenta no peito e que apresenta um gorila a comer um coração. É fascinante a aparente incongruência entre os seus movimentos artísticos e a destruição que provocam. “Tudo tem beleza”, insiste. “Os movimentos são belos, assim como a brutalidade também é bela. Saber como submeter o corpo de outro homem à minha capacidade destruidora é algo realmente belo”.

McGregor afirma que foi este treino não convencional que o ajudou a ser melhor lutador em menos tempo.

“Aprendi novos movimentos com os pés, aprendi a encontrar um centro de gravidade mais baixo e novos ângulos para lançar ataques. Quando ataco não estou apenas a enfrentar outro lutador. Tenho de ter em conta o homem e o chão. Tenho de perceber como é que posso fazer do chão o meu amigo”. Portal explica que “Conor utiliza uma abordagem que não é típica de um lutador bruto. Uma luta é um cenário repleto de movimentos, um quebra cabeças dinâmico e infinito. Existem campos de apoio como a força, a condição física e o fitness que ajudam a aguentar as pancadas, mas o movimento também desempenha um papel importante nesse quebra cabeças”.

Colocar um ênfase especial na elegância dos movimentos pode parecer algo superficial.

Mas funciona. Marco Sanchéz, treinador no Myke Boyle Strength and Conditioning, diz que “com uma mecânica de movimento aperfeiçoada, o corpo consegue aproveitar posições que permitem ganhar mais força”, assinala. Quer seja para aumentar a amplitude de um movimento ou para conseguir uma melhor condição física, é preciso começar por um aquecimento progressivo e terminar com uma fase de arrefecimento no final do treino”.

Treinos sempre diferentes

Demasiadas pessoas fazem um pouco de cardio antes de um treino de musculação, mas o melhor a fazer é imitar esses mesmos exercícios de musculação sem os halteres. Primeiro tem de olear as articulações e os músculos para depois poder treinar a sério. Por sua vez, no arrefecimento, tem de trabalhar os tecidos moles com alongamentos estáticos ou com um rolo de espuma durante cinco minutos. Depois, respire fundo durante dois minutos numa posição relaxada: de barriga para cima, para baixo ou com as pernas cruzadas. Inspire pelo nariz e encha o diafragma o máximo que conseguir e depois expire lentamente pela boca, como se estivesse a soprar uma vela, até não ter mais ar.
Desta forma, baixa a frequência cardíaca e relaxa o sistema nervoso. Sem se ter apercebido, já iniciou a recuperação antes do duche.

A derrota com Diaz não afetou em nada a confiança de McGregor.

Parte desta confiança indestrutível já vem dos tempos de Dublin, na Irlanda, e dos subúrbios onde cresceu. A história das suas origens é quase cliché, mas revela uma luta bem real. McGregor decidiu começar a treinar boxe aos 12 anos, mas a sua dedicação e o gancho de esquerda despertaram a atenção de todos. E o adolescente começou a dar nas vistas…

Entrei num ginásio ainda sem pensar nos títulos. Fi-lo para poder enfrentar o que havia nas ruas.

Ao fim de poucos anos estava a competir, treinando kickboxing e jiu-jitsu – e qualquer outra arte marcial que aparecesse – o que solidificou as suas bases para ter sucesso no UFC. Continuou a lutar e a cobrar pelas suas lutas. “Lembro-me que tinha umas sapatilhas todas desfeitas e aquela situação não podia continuar. Mas não conseguia”. Foi aprendiz de canalizador durante um ano, mas tinha a cabeça noutro sítio. Foi então que viu a sua primeira luta de UFC em Dublin e aquilo mudou a sua vida. “Tinha 18 anos e pelo que vi, nenhum dos lutadores parecia ser melhor que eu”, relembra McGregor. “Apercebi-me que aquilo era algo que podia mudar a minha vida”. McGregor tornou-se lutador profissional de MMA em 2007 e em apenas seis anos obteve um recorde de 12 vitórias e 2 derrotas, tornando-se Campeão da Europa.

Apesar de tudo isto, o estrelato mundial teimava em aparecer.

Porém, tudo isso mudou em 2013 quando Dana White, presidente do UFC foi a Dublin receber um prémio. “Gosto de ir aos pubs”, conta White. “E em cada pub que entrava todas as pessoas falavam de Conor McGregor. Percebi logo que tinha de ver quem era aquele miúdo”. Dias depois, White fez com que McGregor voasse para uma reunião com ele em Las Vegas, o quartel-general do UFC. Levou-o a dar uma volta no seu Ferrari e depois a jantar. McGregor estava louco, mas White também estava impressionado. “Conor tem uma personalidade incrivelmente magnética. Depois do jantar chamei o meu sócio e disse-lhe que se aquele miúdo conseguisse dar um murro em condições que iria ser uma superestrela”. Dito e feito. “Acabou por ser melhor do que pensava. É que não só sabia dar murros, como dava murros letais”, congratulou-se White.

Com Conor não há volta a dar. É um tipo com uma honestidade brutal, sem guiões, que vive o momento. E eu prefiro a honestidade à modéstia.


Mentalidade de campeão

Segundo o dr. Jonathan Fader, psicólogo desportivo e autor do livro Life as a Sport, “esta honestidade é essencial para criar uma confiança sólida como uma rocha. O segredo está em alcançar um otimismo concreto. Temos que analisar objetivamente a situação e procurar provas de excelência. Essas provas têm de estar baseadas em factos concretos, caso contrário o cérebro vai rejeitá-las”. Assim que encontrar esses valores positivos (sucessos já alcançados, feedback favorável e/ou resultados quantificáveis do treino), a perspetiva e o rendimento melhoram automaticamente.

Quando McGregor voltou a lutar com Diaz, a sua confiança já estava restabelecida e o resultado foi o que se viu: mais uma vitória inquestionável para o Mistic Mac.
O segredo? Uma estratégia mais pensada, um cardio melhorado, menos panic mode, pancadas (ainda mais) certeiras e o indispensável segredo de McGregor: uma autoconfiança inigualável.

Rei do estilo

McGregor, além dos KO impressionantes que vai acumulando dentro do octógono, torna-se cada vez mais um ícone de estilo. E, como todas as lendas, também esta tem um começo: o melhor lutador de MMA conta que no dia em que se estreou no UFC, “estava tão confiante que ia ganhar que me preparei a preceito (e antecipadamente) para a conferência de imprensa após o combate”, algo muito raro no mundo das MMA. “Escolhi uma gravata larga, uma camisa rosa e um colete”, relembra. “Todas as peças pertenciam a familiares meus já falecidos, por isso era tudo muito especial. Naquele dia captei todas as atenções. A luta quase que ficou para segundo plano, porque nunca um lutador se tinha vestido como eu, o que na minha opinião é algo muito pouco profissional. Naquele dia deixei bem claro que levo tudo a sério”.

Estabeleça uma boa relação com o seu alfaiate e peça-lhe para tirar medidas regularmente. O peso corporal varia e isso afeta a maneira como o traje assenta.

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