O lado negro do polémico documentário The Game Changers

4 Novembro, 2019

O lado negro do polémico documentário The Game Changers

Documentários e Netflix são dois conceitos que, logo à partida, dão pano para mangas nos dias que correm – o que, nestes tempos digitais, é o mesmo que dizer muita polémica na internet. E é o que está a acontecer com o recente The Game Changers.

Com nomes como James Cameron, Jackie Chan, Lewis Hamilton, Arnold Schwarzenegger, Novak Djokovic e James Wilks no centro da narrativa e produção, este documentário – que estreou em janeiro do ano passado no Festival de Cinema de Sundance e está agora disponível na Netflix – eleva o veganismo a nível que pode ser perigoso quando a mensagem não é devidamente interpretada. Mas já lá vamos.

Em declarações à Women’s Health, Sónia Anjos, psicóloga clínica na Oficina da Psicologia, revela que os documentários têm um propósito muito concreto: exercer pressão social. “Esse é o objetivo, mudar formas de pensar, mudar legislação”, afirma, salientando que “o veganismo já é considerado um movimento social que tenta chegar às pessoas, às empresas e ao poder político”. Mas esta terapia de (quase) choque não se deve apenas aos documentários e à facilidade como a eles assistimos. O facto de o veganismo estar na ordem do dia faz que seja mais noticiado nos meios de comunicação e partilhado nas redes sociais, que, segundo a psicóloga, “são também uma fonte de influência não só pela publicidade, mas também pela rapidez com que circula a informação”. No entanto, continua a especialista, “o que se passa atualmente com o veganismo é um exemplo do acesso a informação que pode pôr em causa valores e gerar conflitos intraculturais pelas questões étnicas, morais e ambientais que estão subjacentes ao veganismo”.

 

O caso do The Game Changers

Apesar de estar na ribalta por ser uma produção recente e fazer uso de nomes de peso na indústria do cinema e do desporto, o documentário The Game Changers não foi o primeiro a trazer o veganismo para o centro das atenções. Earthlings (2005, que é narrado pelo ator Joaquin Phoenix, vegano, ativista pelos direitos animais e membro da PETA) e Cowspiracy (2014) foram dois dos mais mediáticos documentários sobre o veganismo e a indústria de produção animal que trouxeram, a seu tempo, o tema à discussão pública. Mas o seu impacto não foi tão avassalador como está a ser o documentário produzido por James Cameron. Em causa, não está apenas o uso de nomes conhecidos de todos nós e o caso do ex-lutador de UFC James Wilks. Os argumentos apresentados carecem de evidência científica e, sobretudo, de contraditório.

Como relata a Men’s Health dos Estados Unidos, que fez um detalhado fact-check ao documentário, o The Game Changers foca-se sobretudo no impacto da alimentação vegana na saúde e performance desportiva, argumentando que a ingestão de alimentos de origem animal ou derivados (carne, peixe, ovos, laticínios, etc.) pode não só condicionar o desempenho dos atletas, como causar danos no coração, implicações na função sexual e até mesmo a morte precoce. Ora, nenhuma destas consequências é descabida, mas é perigoso usá-las na generalidade (como também nota este artigo no site Medium).

 

O lado mais perigoso do documentário

O facto de não apresentar um contraditório é, por si só, motivo para ficar com um pé atrás perante este documentário, pois, na verdade, apenas mostra o lado que lhe convém mostrar: os benefícios da exclusão de alimentos de origem animal (embora seja sabido que os benefícios são sempre subjetivos e dependem de pessoa para pessoa, do seu estilo de vida, meio ambiente, etc.).

Comecemos por uma das mensagens passadas pelo documentário e que defende que a pesquisa científica feita sobre os benefícios de dietas sem carne é vasta e bem estabelecida (para não dizer antiga, já que a narrativa recorre ao exemplo dos gladiadores e da exclusão de proteína animal que faziam da sua dieta), como destaca a Men’s Health dos EUA.

É certo que existem muitos estudos sobre o impacto do consumo de carne na saúde, sobre os benefícios dos alimentos de origem vegetal e até mesmo sobre o lado positivo de uma alimentação maioritariamente vegetariana – o que não é o mesmo do que vegana –, porém, o documentário foca-se numa pesquisa científica concreta que, na realidade, não é sequer um estudo mas, sim, um curto artigo de Andrew Curry, escritor colaborador na revista Archaeology, a publicação do Instituto Arqueológico da América.

“Não precisamos de recuar ao tempo dos gladiadores romanos e à sua suposta melhor densidade mineral óssea com dietas vegan pois existem meta-análises (compilações de resultados de vários estudos) de 2019 a comprovar que em comparação com omnívoros, indivíduos vegetarianos e vegans possuem menor densidade mineral óssea no colo femoral e coluna lombar e que os vegans têm taxas de fraturas mais elevadas, muito provavelmente por um aporte mais deficitário de cálcio”, escreve o nutricionista Pedro Carvalho num artigo de opinião no site do jornal Público.

Uma outra ideia apresentada pelo documentário como argumento em prol do veganismo é que existem inúmeras toxinas mortais inerentes a todos os produtos de origem animal – toxinas essas tão perigosas como o tabaco. Ora, é certo que o consumo de carne processadas foi classificado, em 2015, como cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS), numa altura em que o mesmo organismo classificou como potencialmente cancerígeno o consumo de carne vermelha. No entanto, vamos ter de separar as águas.

Aqui, o ex-atleta Wilks apresenta no documentário alegações de que determinados compostos exclusivos dos produtos de origem animal aumentam o risco de inflamação, o que pode levar a uma série de doenças, entre elas o sempre temido cancro. Porém, e mais uma vez, é preciso olhar além da generalidade. “O risco absoluto de uma pessoa de desenvolver cancro colorretal é de cerca de 5%. Também sabemos que comer carnes processadas aumenta o risco de desenvolver cancro colorretal”, diz à Men’s Health dos EUA Brian St. Pierre, diretor de nutrição de desempenho da Precision Nutrition. “De fato, comer 50 gramas de carne processada diariamente aumenta o risco de desenvolver cancro colorretal em 17% [como anunciou a OMS]. Parece assustador. No entanto, esse risco aumentado é relativo”, conclui o especialista.

De acordo com João Rodrigues, nutricionista e docente na Universidade do Porto e no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, contactado pela Men’s Health a propósito dos riscos associados ao consumo de fiambre, comer carne processada todos os dias não é sinónimo de cancro certo, nem tão pouco é coerente estipular uma quantidade diária. “Não se pode ter uma métrica por um motivo muito simples, a nossa alimentação deve ser vista como um todo. Se eu consumir um alimento como o fiambre, mas durante o dia tiver uma alimentação com bastante antioxidantes, com fibra, o meu risco claramente vai ser menor do que uma pessoa que consuma menos fiambre do que eu, mas que não tenha esses cuidados alimentares. Confesso que não gosto de valores, porque depende muito de como comemos no dia todo e nos outros dias”.

O documentário The Game Changers defende ainda que a alimentação é o mais importante para a saúde, bem-estar e rendimento desportivo – usando, aqui, grandes nomes do desporto para argumentar. O conceito de que somos o que comemos ganha força de dia para dia e não é tão errado quanto isso, no entanto, e mais uma vez, há outros fatores a pesar na balança, especialmente quando em causa está a prática desportiva profissional.

Um dos argumentos apresentados para elevar ainda mais o veganismo é o resultado de dois testes – um sanguíneo e outro de força e frequência erétil – realizados por veganos e pessoas que consomem alimentos de origem animal. Ora, como seria de esperar, os resultados foram mais positivos para os veganos, só que de fora deste estudo ficaram fatores determinantes como o “sono, fadiga muscular, stress, frequência ou ausência de atividade e/ou exercício físico, hidratação, histórico de uso de tabaco, consumo semanal de álcool, histórico médico anterior, clareza mental, estado emocional e predisposições genéticas”, destaca a Men’s Health neste fact-check. No documentário, apenas abordam a dieta e nenhum outro fator que, de facto, interfere com a saúde e bem-estar de todas as pessoas, independentemente do que comem.

 

https://www.facebook.com/gamechangersmovie/posts/1404922406336738

 

Mas nem tudo é mau

Uma coisa é certa: ainda há um longo caminho pela frente para que a nossa alimentação seja boa, equilibrada e saudável. Embora esteja a crescer a preocupação e consciência sobre a alimentação em Portugal, com uma infinidade de alimentos processados, super saborosos e rápidos de comer, comida pré-cozinha e pronta a aquecer e preços surreais de cadeias de fast-food – que vendem batatas fritas a 50 cêntimos ou menus completos a menos de cinco euros – não seria de esperar que as frutas e vegetais não estivessem no leque de preferências dos consumidores. Esta realidade não é apenas nossa e isso tem implicações sérias na saúde. E este é um dos pontos positivos e credíveis apresentados pelo documentário: a escassez de alimentos de origem vegetal na dieta mundial.

Mas, novamente, importa salientar que a forma como este argumento é apresentado pode induzir em erro, pois uma coisa é passar de uma alimentação em que a carne é protagonista e as frutas e vegetais quase inexistentes, para uma alimentação em que estes últimos são os donos e senhores das refeições. Quando tal acontece, é normal que a sensação de bem-estar seja maior, pois o corpo está a receber uma maior quantidade de micronutrientes (vitaminas e minerais). E isso não quer dizer que a dieta vegana seja melhor, quer, sim, dizer que o consumo de alimentos de origem vegetal, em particular frutas e hortícolas, traz benéficos a curto, médio e longo prazo para a saúde.

Além disso, mudar repentinamente a alimentação e sem o devido acompanhamento – algo que muitas pessoas certamente irão fazer à boleia deste documentário – é um risco é grande. De acordo com Hugo Amaro e Carolina Reis, em entrevista à Women’s Health, a verdade é que as “dietas vegetarianas desequilibradas podem potenciar carências nutricionais, tal como qualquer outro estilo de alimentação. Porém, alguns nutrientes como ferro, zinco, vitamina D e a vitamina B12 não estão presentes em produtos de origem vegetal, ou estão em muito pouca quantidade (praticamente ausentes), ou têm baixa biodisponibilidade”. Isto, claro, para não falar no jogo de cintura que é preciso fazer para aumentar a absorção de alguns nutrientes, como pode ler aqui.

É certo e sabido – e aqui não faltam estudos e recomendações de entidades sanitárias – de que o consumo de vegetais, hortícolas e frutas deve ser diário e abundante, não só pela garantia de ingestão de vitaminas e minerais, mas pelo baixo aporte calórico que estes alimentos têm, assumindo-se como aliados na manutenção de um peso saudável e na prevenção de doenças relacionadas com o estilo de vida (e não só alimentação), como a diabetes e obesidade.

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