Falta de exercício físico custa ao SNS milhões de euros. Como incentivar à mudança?

21 Agosto, 2022

ginásio

Um recente estudo sobre a indústria do fitness aponta que “as faltas de emprego por doença e o presenteísmo custam à economia portuguesa 1.569 milhões de euros/ano”, avança o Dinheiro Vivo.

Em valores mais individuais, um trabalhador português inativo custa 336€ em cuidados de saúde. Já em potencial perdido no aumento do PIB devido ao absentismo e à perda de produtividade custa 806€. Tal representa 7% do rendimento médio disponível per capita (1.142€).

Este estudo aponta para custos diretos para o SNS de um bilião de dólares – os tais mil milhões de euros. Os números são assustadores. Neste momento, temos uma despesa associada à doença que poderia ser excluída se se investisse mais na prevenção em vez de correr atrás do tratamento das patologias”, lamenta Luís Cerca, professor auxiliar de Exercício & Bem-Estar na Universidade Lusófona.

“Há uma despesa associada à doença que poderia ser excluída se se investisse mais na prevenção em vez de correr atrás do tratamento das patologias”.

Embora reconheça a relevância dos números apresentados, o docente alega que tais conclusões dizem mais às pessoas ligadas à área do exercício físico do que à demais população. “Este documento de 2022 vem alertar para a componente económica. É uma componente importante porque mexe com o dinheiro de todos nós, mas é apenas uma das componentes que a inatividade afeta.O problema não tem a ver só com a economia, tem a ver com a qualidade de vida de todos nós”, alega.

Se os custos económicos não chegam para alertar, como incentivar à mudança?

Para Luís Cerca, a falta de prática de exercício físico por parte da população nacional reflete os efeitos da pandemia. Mas não só.

A verdade é que 2019 foi o melhor ano de sempre para o setor do fitness. Com uma faturação de 289,3 milhões de euros, segundo o relatório anual do Portugal Ativo. Com a pandemia, a queda foi mais vertiginosa do que se poderia prever. A quebra foi de 43% face a 2019 e a recuperação está a ser previsivelmente lenta. No entanto, dados de 2016 apontam que 60% dos inscritos em ginásios abandonam o treino antes do terceiro mês e que apenas cerca de 4% dos inscritos é que se mantém por mais de um ano.

A solução? “Incentivar à adesão, mas principalmente à adesão continuada”

Assim nos diz Luís Cerca, certo de que é aí que assenta a maior dificuldade. “A prática de exercício físico nos países desenvolvidos é do conhecimento geral de todos. Toda a gente sabe que deveria ser fisicamente ativo, que deveria praticar exercício físico, mas porque não o fazem? Porque não conseguem passar da intenção à ação. Muitos acabam por desistir, e isto tem a ver com a gestão de expetativas. Quando começam a treinar, as pessoas querem ficar fit para ontem. E é em relação a esta má gestão de expetativas que os profissionais podem ajudar, esclarecendo sobre o processo”.

Como nos diz o docente em Exercício e Bem-estar da Universidade Lusófona, o processo de treino, independentemente de que forma for, está associado a dor física, mas também psicológica. Não tem só a ver com a falta de autonomia e competência em relação à prática de exercício físico. O processo de treino relaciona-se também com a motivação. O querer ou não ir treinar. “Tem tudo a ver com o poder de decisão da gestão do tempo e do objetivo criado”, garante.

Tornar o processo mais simples

“Muitas vezes, as pessoas pensam que tem de treinar sempre 1 hora. É mentira! Hoje temos estudos que provam que mesmo que as pessoas treinem 5 , 10 ou 15 minutos já têm resultados. A falta de desinformação leva a que se desacredite desta ideia de que o pouco significa muito”, diz-nos Luís Cerca. O problema, mais uma vez, está na falta de consistência no tempo – o segundo passo, após se passar da motivação à ação.

Em suma (pelo menos na teoria) a solução é simples: apostar na medicina preventiva. “As pessoas quando estão doentes recorrem ao médico, mas deviam recorrer antes, de forma preventiva. É a mesma coisa em relação ao exercício físico. Antes de se cair na desgraça de ficar muito condicionado, deviamos procurar ser acompanhadas por alguém que ajude, que dê um input para que percebamos o quanto a prática de exercício físico é importante.

“Não basta só construir instalações, isto é a parte mais fácil. Só tem de haver investimento. O problema tem a ver com a autoconsciência de cada um em querer fazer. Em ter uma vida melhor; perceber que o exercício dá qualidade de vida, não só física, mas também mental e social. Estas três dimensões são super importantes para a pessoa sentir que a sua qualidade de vida é completamente diferente”, remata.

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