Utilização de ecrãs afeta (e muito) a visão das crianças

Desde a sua introdução no mercado há 25 anos, os dispositivos eletrónicos com ecrã e ligação à internet tornaram-se ubíquos. A pandemia por SARS-CoV-2 e o isolamento físico colocaram ainda mais ênfase no recurso e ampla utilização destes equipamentos. Ao longo da vida e em qualquer idade, a utilização é expressiva e para os fins mais diversos como o entretenimento, aprendizagem, pesquisa, fotografia, visualização de vídeos, atividade comercial, contratação de serviços e largamente utilizados para fins laborais. São meios que reduzem a distância, virtualmente, e asseguram o fácil acesso a mais serviços e oportunidades.

Contudo, todas estas vantagens de velocidade e nível de acesso facilitado implicam esforço acrescido por parte do ser humano em conseguir lidar com esta conexão ao mundo, na palma da mão.

É do senso comum que o uso excessivo de telemóveis, tablets, computadores e dispositivos eletrónicos similares podem levar à dependência e podem causar sintomatologia ocular. Sem a ergonomia visual adequada é natural o surgimento de sintomas tais como astenopia, hiperemia, secura ocular, desfocagem transitória e diplopia.

Para reduzir ou evitar estas ocorrências, recomenda-se que a cada vinte minutos de fixação, se realize uma pausa de vinte segundos fixando um objeto situado a seis metros, ou o mais próximo disso. Esta recomendação permite que a acomodação, mecanismo ocular responsável pela focagem em visão próxima, relaxe e recupere. Para reduzir a astenopia devemos diminuir o brilho do ecrã e aumentar o contraste dos dispositivos de modo a sentir maior conforto. O redobrar a frequência de pestanejo é essencial para a lubrificação ocular. Mas se mesmo assim não for suficiente pode-se prescrever a utilização de um lubrificante ocular. A visão desfocada e a diplopia são sintomas que merecem avaliação por optometrista.

Embora a utilização de tablets e telemóveis não apresente consequências permanentes, por si só, há evidências suficientes para estabelecer uma correlação entre a baixa exposição ao ambiente exterior, a limitação a atividades aí realizadas e o desenvolvimento da miopia. Assim como há evidência que relaciona diretamente o comprimento axial do olho e progressão da miopia, com a aproximação excessiva dos dispositivos aos nossos olhos e com o tempo que despendemos em frente deles.

A elevada incidência da miopia nos jovens está classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como epidemia, atingindo oitenta por cento das crianças em alguns países. É um problema de saúde pública que requer limitação do tempo de utilização destes equipamentos, dando preferência à prática de atividades ao ar livre.

A OMS preconiza que as crianças com idades inferiores a um ano não sejam expostas a estes aparelhos e à limitação de uma hora diária, no máximo para as crianças entre dois e quatro anos.

Para além de todas as sugestões aqui realizadas, apela-se à prevenção e aos cuidados frequentes para a saúde da visão, com consultas optométricas semestrais em crianças entre os seis e quatorze anos e anuais dos 14 em diante, de forma a prevenir e tratar atempadamente, evitando deficiência visual e cegueira.

Dr. Raúl de Sousa, presidente da APLO.

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